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sábado, 2 de outubro de 2010

O ano da morte de Fernando Pessoa



«Noutra circunstância tivemos a oportunidade de pôr em relevo o facto de 1935 ter sido para Fernando Pessoa um ano de intenso combate. (…) combate nas  diversas frentes de escrita (a poética, a de reflexão ensaística, a epistolar, a de recorte polemizante).»
                                             João Rui de Sousa     BNP[1]

        O ano da morte de Pessoa, assim como os primeiros anos da década de trinta, constituíram um marco decisivo para a sua maturação criativa, alicerçada em vários géneros: poético, ensaístico, epistolar e narrativo. Nesta fase, Pessoa criou alguns dos seus textos mais emblemáticos, ancorados numa visão caleidoscópica e talvez auto-justificativa. Senão vejamos: em 1931, a 1 de Abril (dia das mentiras), o poeta escreve Autopsicografia, considerado pelos críticos um elemento importante para a compreensão da sua obra, a partir da teoria do fingimento poético; em 1932, surge O Caso Mental Português, ensaio crítico e polémico em que é diagnosticada nos portugueses a doença do “plágio aos estrangeiros”; no dia 1 de Dezembro de 1934, surge Mensagem, o único livro publicado em vida do poeta, que expressa a sua visão saudosista e esotérica. No ano que marca o final da sua existência, Pessoa redige a Carta sobre a Génese dos Heterónimos (8 de Março), enviada a Adolfo Casais Monteiro , onde explica a origem dos “alter-egos” pessoanos; ainda em 1935 Pessoa escreve o poema Liberdade, numa alusão irónica ao regime ditatorial da altura e ao “especialista em Finanças”, seguindo-se outros poemas que referem explicitamente o nome de Salazar. Ainda no mesmo ano, Pessoa, na sua correspondência a Adolfo Casais Monteiro, de 13 e 20 de Janeiro, (PESSOA, 1999:338), revela a sua faceta literária de escritor de novelas policiais. Segundo o próprio, tratava-se de uma paixão antiga, silenciada pelo tempo e pela censura mas que parecia urgente revelar, quase como um desejo de moribundo. O sonho de publicar uma novela policiária, contudo, não chegou a passar de um anseio. Esta impossibilidade não se deveu tanto a motivações internas mas externas; o contexto político de censura ditatorial salazarista não favorecia o eclodir de textos inovadores, como se pode comprovar pelo discurso de Salazar no Secretariado dos Prémios de Propaganda Nacional, em que Mensagem obteve o segundo lugar: «Os princípios morais e patrióticos que estão na base deste movimento Reformador (o Estado Novo) impõem à actividade mental e às produções da inteligência e sensibilidade dos Portugueses certas limitações, e suponho deverem mesmo traçar-lhe algumas directrizes.»[2] Após esta imposição aos intelectuais portugueses, Salazar completava o seu discurso, apelando para o reforço da formação cívica e moral do escritor, em detrimento da sua liberdade criadora:

«É impossível nesta concepção da vida e da sociedade a indiferença pela formação mental e moral do escritor ou do artista e pelo carácter da sua obra; é impossível valer socialmente tanto o que edifica como o que destrói, o que educa como o que desmoraliza, os criadores de energias cívicas e morais e os sonhadores nostálgicos do abatimento e da decadência.»[3] (itálico nosso)  
 
Fernando Pessoa sentiu-se directamente atingido por estas últimas palavras e escreveu, em 29 de Março de 1935, alguns poemas satíricos sobre a figura do Ditador, assinando “Sonhador nostálgico do abatimento e da decadência”. (PESSOA, 2008b:21-24)
 Dada a conjuntura política do Estado Novo, o poeta, amargurado mas mantendo a sua fina ironia, escreveria a Marques Matias, em carta não datada: «… certas circunstâncias externas a que não consigo ser insensível abatem-me e perturbam-me. Tenho estado velho por causa do Estado Novo. Todas estas coisas, se não me privam de tempo material com que possa escrever, todavia me reduzem o tempo mental com que possa pensar em escrever.»
Contrariamente ao que Pessoa prognosticou, o tempo material desvaneceu-se subitamente e, a 19 de Novembro, escreveria o seu último poema em português: Há doenças piores que as doenças. Passados oito dias, a 30 de Novembro de 1935, num sábado ao final da tarde, desaparecia um dos maiores poetas portugueses do século XX.

                                                                              C. Gil
                                                                              30 Set./2010


[1] In «Fernando Pessoa e o Estado Novo», JL- Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 14-20 de Junho de 1988,pp.10-13.
[2] In Colóquio Letras, nº 100,Novembro/Dezembro de 1987,Fundação Calouste Gulbenkian, p.124.
 Espólio da Biblioteca Nacional, (92 V-73-96).

[3] Idem, p. 124.

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