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sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A Perfeição

A propósito do testemunho de João Simas sobre a sua leitura da obra de Homero Odisseia, ocorreu-me o conto A Perfeição, de Eça de Queirós, pelo qual sempre tive um enorme fascínio e que revisito amiúde.


JENNY refere:
Ao escrever: “ Mais ou menos todos os livros contêm, medida, a fusão de qualquer repetição”, Mallarmé sublinha um fenómeno que, longe de ser uma particularidade curiosa do livro, um efeito de eco, uma interferência sem consequências, define a própria condição de legibilidade literária. Fora da intertextualidade, a obra literária seria muito simplesmente incompreensível, tal como a palavra duma língua ainda desconhecida.
É, então, o texto do grande Homero, qual palimpsesto, que emerge no conto de Eça, A Perfeição. Diz Charles Péguy: «Não há nada tão puro como Homero…Ele é o maior. É o mais antigo. É o patrono. É o pai. É o mestre de tudo.».
Coloca-se a questão de como teve Eça de Queirós acesso ao texto. Ora, na realidade, apesar de ter escrito todo o conto A Perfeição com base no Canto V da Odisseia, Eça conheceu a obra de Homero pela tradução do grande mestre do parnasianismo francês Leconte de Lisle, que em 1868 publica a Odisseia.
Ulisses, herói mítico grego, por outros também celebrado, por exemplo, Camões, no Canto II d’ Os Lusíadas, aludindo explicitamente, ao texto homérico: «Que se o facundo Ulisses escapou/ De ser na Ogígia Ilha eterno escravo», ou, no Canto III da mesma obra, recuperando o mito de que o herói teria aportado no rio Tejo e aí fundado uma cidade com o seu nome: Olisipo, ou seja Lisboa: «E tu, nobre Lisboa, que no mundo/ Facilmente das outras és princesa, / Que edificada foste do facundo/ Por cujo engano foi Dardânia acesa», mito este que a segunda estrofe do poema «Ulisses» da obra pessoana A Mensagem é reavivado, em intertexto com o anteriormente citado, sendo o deíctico referente ao lendário Ulisses: «Este, que aqui aportou, / Foi por não ser existindo. / Sem existir nos bastou. / Por não ter vindo foi vindo/ E nos criou.» irá dar mote ao conto de Eça.
No conto A Perfeição, Ulisses é-nos desde logo apresentado através de um superlativo: «o mais subtil dos homens», que o instauraria numa posição de supremacia, não fosse porém a atitude passiva, a figura da melancolia que o mesmo patenteia:
«Sentado numa rocha, na ilha de Ogígia (…) numa escura e pesada tristeza…». A «paz e beleza imortal» condicionam o herói que «amargamente gemia». Na verdade, circunscrito num espaço que não lhe permite o regresso, Ulisses lamenta também, no primeiro capítulo, a anulação das características de herói que lhe eram próprias: «(…) E ao herói, que recebera dos reis da Grécia as armas de Aquiles, cabia por destino amargo engordar na ociosidade de uma ilha mais lânguida que uma cesta de rosas…».
Irá ser a ordem de Zeus (segundo capítulo) transmitida por Mercúrio que permitirá a Ulisses ser novamente dotado do seu poder de agir, perdendo o carácter de semi-deus inactivo e readquirindo o estatuto de herói humano.
Nos capítulos terceiro e quarto, Ulisses irá agir sobre a ilha, transformando-a, já que dela extrai matéria para a sua jangada. Por outro lado, agirá também sobre Calipso através dos diálogos, menosprezando-a e apresentando-lhe um ideal de vida a que ela e a sua ilha são totalmente alheios. À degradação, sucederá a euforia, a excitação, que tanto serão sentidas pelo herói, como despoletadas pelo mesmo, na deusa, nas ninfas, na natureza.
Este texto afirma-se pelo questionar da validade do próprio estatuto da perfeição, valorizando-se a humanidade, aquilo que é susceptível de falhar, a mortalidade, através de um discurso erótico assumida e intencionalmente irónico, que define Eça. Assim se justifica a última frase do texto, em guisa de conclusão: «(…) partiu para os trabalhos, para as tormentas, para as misérias – para a delícia das coisas imperfeitas!»
O conto A Perfeição remete-nos para a apologia do imperfeito, do que seduz pelas suas arestas a limar, qual diamante em bruto, por lapidar. No fundo, é o universo dos homens, imperfeito, que é sobrevalorizado, a lembrar o «Cântico de Humanidade», de Miguel Torga:
«Hinos aos deuses, não./Os homens é que merecem /Que se lhes cante a virtude./Bichos que lavram no chão,/Actuam como parecem,/Sem um disfarce que os mude./ Apenas se os deuses querem/Ser homens, nós os cantemos./E à soga do mesmo carro,/Com os aguilhões que nos ferem,/Nós também lhes demonstremos/Que são mortais e de barro.
Com um referente cujo pendor fantástico assume grande pertinência, centrado num exercício de reescrita, a partir da obra de Homero, o conto de Eça vai mais além que o hipertexto, auto-revelando-se e oferecendo ao leitor inúmeras possibilidades de fruição daquilo a que Ernesto Guerra da Cal designa por «mórbida volúpia dos sentidos».
A ficção, o pormenor, o fetiche, a ambivalência entre a vida e a morte, a ordem e o caos são tópicos que ajudam a tecer o discurso erótico consolidado através de um estilo emblemático, a que não é alheio o culto pela beleza formal, procurada através do contraste, da metáfora, da comparação, da repetição, da utilização de substantivos helénicos, da escolha cuidada e, frequentemente, inusitada, do adjectivo, do advérbio, ou do verbo, entre outros.
A sedução constante para a «perfeição» ou para a «delícia das coisas imperfeitas», dicotomia sempre presente, alicia-nos, através de uma sensibilidade sensorial, obsessiva, próxima da «neurose sexual» (?) como pretendia João Gaspar Simões.
Rendidos, é tempo de êxtase…


Ana Paula Ferrão

1 comentário:

Anónimo disse...

Sou uma amante da Língua Portuguesa e tenho verdadeiro fascínio pela "Perfeição". Foi extraordinário o enquadramento e o paralelismo que estabeleceu com a "Odisseia".
Continue a brindar-nos com outras participações igualmente inteligentes...

Conceição Fialho