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terça-feira, 28 de outubro de 2008

Alma de Saltimbanco
















Alma de Saltimbanco:

Com esta breve narrativa procurarei o diálogo entre duas artes, a Pintura e a Literatura.
Na minha incursão, tomarei como base o enigmático quadro do pintor Pablo Picasso Les Saltimbanques (1905).



Et nous existerons en nous amusant, en rêvant amours monstres et univers fantastiques, en nous plaignant et en querellant les apparences du monde, saltimbanque, mendiant, artiste, bandit…
(Rimbaud, Une Saison en Enfer)



Audácia, virtuosismo, ilusão, duplo mortal, aplausos, apoteose, triplo mortal, aplausos, êxtase; vertigem, desassossego, inquietação…
- Sophie!!!

Cote d’Azur. Em S. Rafael procuro a alquimia, a luz, o sopro anímico para as minhas telas.
Saí cedo do Hotel onde pernoitei. Agora já é o final da tarde.
A época estival traz alguma animação à praia.
A atmosfera é mágica.
Uma esmeralda infinita e ondulante cintila até à linha do horizonte num jogo de contrastes com a abóbada turquesa raiada de nuvenzinhas brancas e cor-de-rosa. É o mar numa dança pré-nupcial com o céu.
À beira da falésia, perco-me a seguir os veleiros que sonham outras paragens.
Preguiçosamente, flutuam as gaivotas e, de repente, cruzam os ares, ébrias de azul, em demanda das correntes de ar quente.
Subitamente, a minha atenção é desviada para o passeio marítimo, onde alguém apregoa croissants. Os meus sentidos bem despertos conseguem captar o odor dos bolos acabados de preparar e visualizo até os tons quentes das compotas que os irão rechear. Passeantes alegres respondem deliciados ao convite.
Graciosas, as burguesas pavoneiam-se exibindo sedas esvoaçantes e algodões frescos. Os seus chapéus inspiram-me. Transfiguro-os: nesta um cesto de flores, naquela um ananás maduro, na outra uma paleta com o arco-íris.
Os acompanhantes masculinos, com fatos de alpaca, cofiam os bigodes e fazem festas aos caniches que as senhoras levam ao colo. O ritmo da deambulação é marcado pelo compasso das bengalas que expelem chispas prateadas quando o sol, caprichoso, incide nas incrustações.
Protegido pela doce sombra de uma palmeira, um homenzinho atarefado vende sorvetes. Mais à frente, uma mulher de pele morena, vestida de chita matizada, corta papel pardo onde enrola por metade as baguettes que os clientes levarão depois debaixo do braço.
Na areia doirada, aqui e acolá, toalhas coloridas, damas com sombrinhas, velhos de boina, crianças felizes vestidas à marujo …
Desço à praia. A luz é quase perfeita. A vontade de perpetuar o momento é quebrada pela constatação de algo que quase me faz perder o bom-humor. Esquecera a paleta, os pincéis, a tela, o cavalete. Subitamente, a minha alma de saltimbanco rejubila com um novo frémito, pela percepção de algo inesperado.
Perto de mim, a uns escassos metros, surge um grupo de vagabundos solitários, decerto guiados pelo sonho, e unidos pela cumplicidade: Les Perrot, anunciava um pequeno estandarte algo desbotado. Um misto de nostalgia e de esperança emanava dos seus semblantes. Quais aves migratórias, seguindo um percurso gizado por uma imperiosa necessidade de sobrevivência, os saltimbancos acabavam de cumprir mais uma etapa.
- Enfim Saint Rafael! Bom augúrio. O Santo é protector dos viajantes e guardião da saúde física e mental. - Era Vincent que assim exultava, arfando. Gordo, o avô. Uma espécie de momo da Idade Média, com um gorro ridículo a prometer entretenimento e mil tropelias.
- A praia está composta, papá. - avança Philippe, o Arlequim –, queremos muito público hoje -. Era uma figura viril, ainda jovem, de olhos azuis acinzentados a condizer com os tons do fato com padrão aos losangos.
Entretanto, um som de tambor ajuda a captar a atenção dos veraneantes. Era Albert, o tocador, um rapaz seminu, irmão de Philippe.
- Toca, não pares, tio. Estão todos curiosos. – diz Jules, um rapaz baixinho e pálido, começando a exibir-se na sua roda, enquanto Chantal, a sua irmã, delicada menina em trajes de seda cor-de-rosa, ensaiava os seus melhores passos.
Aproximei-me um pouco mais, magnetizado pela cena: a cor, o movimento, o ritmo compassado do tambor.
- Bonjour, Monsieur. Não perca o nosso espectáculo, logo mais vamos actuar no Cirque de la Lune.
Então vi-a. Epifania! A dona daquela voz cálida e doce olhava-me fixamente com uns olhos travessos, cuja tonalidade parecia ter absorvido a esmeralda do mar e a turquesa do céu. Contemplei-a demoradamente. Vestida de lycra, a sua figurinha esbelta com contornos perfeitos deixava adivinhar músculos firmes e bem trabalhados, de quem buscava no trapézio novas formas de desafiar as leis da gravidade. Sempre à procura do melhor salto mortal, testava os seus limites ao sabor do risco constante de uma queda. É preciso ousar. Assim era Shophie, fatalmente, para mim, mulher de Philippe, mamã de Jules e de Chantal.
- Com certeza, Madame.- respondi, tartamudeando, sentindo um arreliante rubor acorrer-me às faces -, serei um espectador entusiasta.
A luz era agora perfeita naquele cair de tarde. Desejava fixar o instante numa tela orquestrada por verdes e azuis. Maldito estojo esquecido; execrando hotel que ficava longe da praia.
- É asseado, Monsieur, e muito em conta. – dissera a recepcionista.
Há algum tempo já que não conseguia vender um único quadro. A crispação que transparecia nas últimas telas parecia não atrair compradores. Os escassos francos que guardava ciosamente na minha carteira não davam alternativa. Anuí.
- Fico. Aproveitarei para passear a pé até à beira-mar.
Na ânsia de colher inspiração na praia de Saint Rafael, impelido por uma força desconhecida, tinha olvidado o material de pintura. Imperdoável! Porém, aquela cena iria ficar retida na minha mente ad eternum , pronta, quiçá, a ser recriada a qualquer momento.
- À toute à l’heure.
- À toute à l’heure, monsieur.
Deambulei, então, mais ao menos ao acaso, pelas ruas agora mais sombrias. A tarde refrescara. Apenas o rosto ainda ruborizado me devolvia algum calor. O coração palpitante ansiava por um novo encontro. Sempre a esperara, sem saber. Sabia-o agora.
Entretanto no hotel, um creme de cebola demasiado agridoce, ingerido à pressa e um golo de rosé que deslizou com dificuldade pela minha garganta dolorosamente seca, não conseguiram reconfortar-me de uma fraqueza inusitada, um estado de inquietante nostalgia que tomava de assalto o meu corpo e o meu espírito desprevenidos. Sophie!...
Depressa regressei à rua agora deserta. Ouvia ecos longínquos de uma música circense que se confundia com o piar lúgubre das aves nocturnas, ávidas de sangue. Só a lua, ostentando um halo enigmático, testemunhava a minha excitação incontida. Sophie, exibe-te só para mim.
De repente, recortando-se no céu, agora de pedra ónix, vislumbro a tenda da fantasia: Cirque de la Lune, anunciava o dístico sobranceiro. O público acotovelava-se, ávido de diversão.
- Madames et Monsieurs, « Les Perrot » !
Eis Vincent, o momo, fazendo mil esgares e procurando enterrar todos os desgostos. O seu figurino extravagante e a visível boa disposição contagia o público, que não regateia as palmas.
Segue-se o arlequim, que apresenta um número romântico, mimando tristemente um par com uma Colombina que nunca aparece, enquanto Chantal, a pequena bailarina, se exibe discreta e graciosamente num esvoaçar cor-de-rosa. Os espectadores estão rendidos. Por aqui e por acolá, cai uma lágrima teimosa em honra daquele arlequim solitário.
- Animação, muita animação. – anuncia Albert, o tambor, num vigoroso ruflar. E quase em simultâneo entra Jules, manuseando a roda numa simbiose perfeita entre corpo e objecto artístico, como que animado por um fogo sagrado. A empatia com o público é imediata.
- Pedimos silêncio, Madames et Messieurs. Segue-se um arriscado número de trapézio.
Nem um murmúrio na assistência, subitamente anestesiada por um respeito incomum.
Ei-la. No trapézio sem rede, em movimentos arrojados, desafia Áthropos às vezes numa dança sensual, outras numa vertigem sem fim. Manipulando a corda como ninguém, ocasionalmente parece querer infligir um castigo a si própria, auto-flagelar-se, para esquecer a vida de saltimbanco que um dia lhe oferecera Vincent, e que sozinha e sem alternativa, órfã e sobrevivente de um circo em chamas de onde seus pais não conseguiram escapar, se viu forçada a abraçar.
No trapézio rodopia ainda, é um fuso. Sobe, é uma estrela. Voando perigosamente, cada vez mais alto, qual Ícaro na proximidade do sol, exerce um magnetismo exorcizante nos espectadores. As suas piruetas em incursões pelo abismo, deixam transparecer um êxtase infindável.

Audácia, virtuosismo, ilusão, duplo mortal, aplausos, apoteose, triplo mortal, aplausos, êxtase; vertigem, desassossego, inquietação…
- Sophie!!

Onde estás Rafael, santo amaldiçoado, que não fizeste jus ao vaticínio de Vincent?
Abandono o cemitério.
Os saltimbancos estão inconsoláveis. Todavia, há que prosseguir viagem. Cumprir o roteiro que a sobrevivência ditou. Cannes espera-os. 30 km a vencer e o circo La Grande Illusion será a próxima etapa. É lá que tudo acontece. O espectáculo tem de continuar, mesmo que o trapézio agora inerte, já não hipnotize os espectadores.
Sigo-os, como uma marioneta manipulada por uma força superior.
Expio-os. Sou voyeur inveterado.
Route de la Corniche. O caminho é sinuoso.
Le Drammont, mais à frente Boulevard de la Plage. É preciso interagir com os passeantes. Os malabarismos misturam-se com as momices, enquanto a roda gira ao som de um tambor. A actuação do arlequim é pretexto para uns passinhos pouco convincentes de uma bailarina desolada. Mas é preciso comer.
Route de Saint Barthóeny. Mais um duro percurso com carreiros em declive e o mar belicoso lá em baixo.
Continuo a segui-los.
Em Théoule-sur-Mer pernoitamos, não sem uma nova actuação, não sem enganar o estômago. É preciso viver.
Consegui vender uma tela. Com o dinheiro que apurei, comprei alguma coisa para retemperar forças e continuar a caminhada ditada pelos saltimbancos.
Plage du Midi. É tempo de uma paragem revigorante, a 5 km do destino aguardado. O mar, como uma túnica ondulante que ornamenta o corpo de uma bela mulher, acaricia ao de leve a areia, com a qual, num brando murmúrio, entabula um harmonioso diálogo.
Chantal percorre a beira-mar e vende flores cor de salmão que tira de um cestinho.
Franze o sobrolho, e chora sem saber a razão, ao escutar palavras enigmáticas ditas por uma burguesa que lhe compra um raminho:
- Serás sempre a minha flor.
Aquela voz…
Os outros entreolham-se como que petrificados.
Qual fantástica aparição é ela que, olhando o vago, repousa gozando tranquilamente a suavidade do areal. O seu perfil é irrefutável, ainda que a aparência fidalga seja pretexto para não lhe trair a identidade. Nos olhos agora enigmáticos, brilha a esmeralda matizada de turquesa. O mesmo rosto num corpo cujos contornos estão dissimulados sob uma ampla saia rodada e um xaile que tem o cuidado de segurar zelosamente. O chapéu que lhe cobre graciosamente o adorável cabelo encontra-se agora enfeitado por flores cor de salmão. Pronta para viver uma nova vida que não a de Saltimbanco.

A luz é perfeita. Confiro o estojo de pintura. É a minha chance.
- Bonsoir Madame.
- Bonsoir Monsieur. É preciso ousar.
Um rubor invade-me e com ele pinto as flores do teu chapéu.
- SOPHIE!!!


FIM


Autora:
Ana Paula Ferrão

1 comentário:

paula vidigal disse...

Constato, uma semana depois de termos inaugurado o blogue, que este já é uma iniciativa de êxito... com ele descobrimos talentos que por aí se escondiam.
Parabéns por partilhares connosco as tuas "incursões".